quarta-feira, 3 de abril de 2013

Devaneio sobre barulho/silêncio



O silêncio que percebi e me impressionou em Berlin (ainda mais quando com neve), maior do que de outras capitais por onde passei, não está só no fato "aliviante" de não haver o ruído alto e constante de ônibus, carros, buzinas, gritos, músicas, conversas, saltos altos e etc que há tão alto em Sampa... E que cansa e stressa tanto. Achei mágico uma cidade grande poder se silenciar daquele jeito.

É um silêncio também que surge pra mim da possibilidade de abstração do significado das palavras ao redor (eu que não entendo nada de alemão). Lá eu não lia anúncios e placas o tempo todo, ou escutava mil conversas que não me interessavam e me desconcentrariam de meu próprio raciocínio e devaneios sobre o mundo e eu e a cidade e... esses tantos estímulos constantes que me tirariam do meu tempo interno.

Lá há sim, bastante estímulo visual, naquela cidade colorida de street art. Mas estes não estão o tempo todo fechando, guiando seus desejos, mas estão sim em busca de te instigar ao repensar, em sua grande parte... E esses são os estímulos que considero ricos e necessários, os que busco.

Acho mesmo que é uma infelicidade da máquina humana não se poder aumentar e diminuir o volume do mundo de acordo com sua necessidade e seu desejo momentânios. E espero não insultar as pessoas que não podem escutar, de forma alguma, mas que ser ouvinte nunca desejou, por segundos que seja, ser surdo ao menos naquele nível dos avós, que tiram o aparelho auditivo quando se cansam de escutar alguém ou o mundo? Será isso um pecado (não que eu me preocupe com esse sentimento)? Um descaso pela perfeição de se poder escutar? Não, não é isso.

Talvez seja apenas uma descrença no que o homem tem sido capaz de produzir, no que o mundo tem nos oferecido, ou seja, no que nós próprios temos sido capazes de fazer do que nos cerca e de nós mesmos. É um tentativa de me voltar pra dentro em busca de algo mais verdadeiro e essencial, além de simplesmente querer fugir dessa poluição auditiva que de fato faz mal pra qualquer ser humano, pra falar do lado prático e objetivo também. Poxa, tanto barulho cansa... mesmo.

Eu voltei de Berlin com tanta vontade de aprender (ao menos um pouquinho de) alemão e voltar pra lá daqui um tempo, quem sabe um ano, pra poder quem sabe começar a entender a visão de mundo que organiza a cidade, a sociedade e educa os filhos daquela forma que tanto me interessou. Mas hoje questiono se talvez o maravilhamento pode ter sido tão grande exatamente porque houve o não-entendimento, a imaginação, a lacuna, o mistério, a possibilidade em aberto. E ainda assim, claro, a vontade de voltar com mais calma permanece forte e eu continuarei a me questionar e irei atrás de aprender alemão... seguindo a busca pelos questionamentos e possíveis respostas.

Enfim, sobre barulho e a minha nessecidade de silêncio, brinco que existe sim amor em SP, o que não existe é silêncio. Então eu uso protetor auditivo pra andar pelas ruas, ufa!

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